sábado, 22 de setembro de 2007

Vernissage


Uma Formiga na Saia do Universo

Individual de Marco Mendes

22 de Setembro de 2007, Galeria Plumba, Porto

O Texto que o Marco me obrigou a escrever

por Lígia Paz

Quando conheci a obra daquele que viria a ser meu companheiro, Marco Mendes, jamais poderia imaginar o que me esperava. Nos momentos seguintes à confrontação, senti-me como uma ostra num campanário: afogueada e surpreendida perante a sua impulsiva necessidade de fazer auto-retratos de anões viris; e assustada com a íntima pulsão latente do seu traço. Temi que tentasse regar-me com sumo de limão, para depois me devorar. Não estive longe da verdade.

Começemos pelo princípio: a sala da casa partilhada por Marco Mendes com o seu parceiro d’A Mula, Miguel Carneiro, possui contornos míticos. Cenário ora de festas, de uma mesa de ping-pong, do sofá onde tanta gente dormiu e foi retratada, e das paredes cobertas de desenhos e desabafos diversos. Era um ambiente que cheirava a decadência e partilha, a excessos e amigos, e à incontornável existência da piaçaba decrépita da casa de banho. Ao sexo, drogas, álcool e rock’n’roll associavam-se pelas paredes testemunhos autobiográficos e plurais que primam pela sua transparência, crueza e intimidade envolvente. E, muito frequentemente, um inesperado humor capaz de surpreender um arenque bilioso.

Auto-centrado e contemplativo-romântico, decadente e alegre, minucioso e javardo, a sensibilidade do Marco revela contradições e complexidades, as quais ganham sentido e naturalidade ao longo do seu trabalho. Desta forma, ao virtuosismo técnico somam-se as rasuras e emendas, à melancolia junta-se a pornografia, à representação do mundo real une-se o absurdo e o ficcionado. A um lado negro, nostálgico, angustiado ou por vezes solitário, acresce um humor por vezes inverosímil, outras mórbido.

Em toda a crueza do seu realismo social, sem artifícios ou auto-complacências, as representações e retratos dos que lhe são mais próximos são também um testemunho geracional e de época. É também notória a existência de um sentimento de partilha, de identidade e de pertença – a um país, com as suas contrariedades e cultura; e a uma comunidade, unida pela partilha de valores, de experiências, e de cerveja a oitenta cêntimos.

As características do trabalho podem, ou não, ser catalogadas em diferentes tipos de abordagem. No “desenho à vista”, os planos são prolongados e os enquadramentos inusitados; surge com alguma frequência um sentimento de tranquilidade nostálgica, atento a pequenos detalhes e a facetas várias da vida quotidiana. Há uma preocupação em capturar o ritmo fluído das palavras e acontecimentos, num texto contínuo e frequentemente corrigido, riscado, e deixado estar como se a borracha não existisse.

Já no trabalho de banda desenhada (e de “banda desenhada à vista”, em tempo real) são exploradas as possibilidades rítmicas inerentes ao formato, sendo o desenho frequentemente mais explosivo, emotivo, e surpreendentemente cómico. É sobretudo neste registo que os indivíduos retratados mais se distanciam das suas personagens ficcionadas. Nesta pseudo-realidade criada pelo punho do autor, atravessam o espectro do melhor e do pior que todos encerramos - o absurdo, o lado negro, o prazer, a alegria, o falhanço e as limitações sexuais; os nossos gostos, fragilidades, perversidades e manias. As interpretações e reflexões sobre a realidade ganham contornos mais críticos e políticos, e a sátira ganha destaque.

Desde o ano de 2004 e até à noite anterior à inauguração, Marco Mendes abdicou de um cargo de direcção numa empresa cotada em Wall Street, de camareiro de strippers em Hong-Kong, e de lavar a roupa com a devida frequência para afincadamente erguer a produção artística que poderão, a partir de hoje, ter o prazer de saborear na Galeria Plumba.


10 comentários:

jucifer disse...

fixe!

jmsm disse...

Olá Marco!!!!
Parabéns pela exposição.
Aqui fica mais uma vez provado
que se pode fazer um excelente exposição partindo do mundo da BD
esta exposição é maior que a questão de a BD ser arte e estar no sistema artístico
ela não deixa margens para que pensemos o contrário disto que é:
estamos perante uma excelente apresentação de trabalhos de um criador
que se apresenta, que se representa que representa o seu lugar, os problemas inerentes a esse lugar e a sua condição existencial.
As questões das disciplinas, se é desenho, BD, ilustração e ou pintura parecem-me secundárias pois servem o dizer, a expressão, representação, etc., …
Desde que soube que irias apresentar o teu trabalho
Nunca imaginei outra coisa,
Que não fosse
UMA BOA EXPOSIÇÃO
e aí está ela

abraço forte e amigo
maia

diário rasgado disse...

Obrigado, Zé!

Viste a Performance do Gustavo?

MUUITO BOA


Abraços!

zoo disse...

ah bom, ja te ia perguntar pelas fotos da "exhibit", gosto das freiras, apreciadores dos "comics" vejo, este catolicismo...

isabel disse...

oi Marco,
não tive oportunidade de te dar os parabéns pela expo!
ficam aqui dados em público:
PARABÉNS!
[embora gostasse de ter trocado umas palavrinhas contigo...(a questão é a mesma que o Maia refere no seu comentário...!)]

:)

diário rasgado disse...

Obrigado, pessoal!

Flashfinger disse...

Finalmente, tive oportunidade de visitar esta exposição. Sendo um fã de banda desenhada, sobretudo daquela do Batman que é muito porreira, não fiquei surpreendido. Este tal de Marco Mendes deve ser daquela malta dos fanzines que não tem mais nada que fazer senão queixar-se de que ninguém gosta dele como artista. Pudera! Nem sequer cor têm as pranchas e vêem-se as correcções. Bueda fatela!
Em todo o caso, quero mesmo reservar o retrato do outro gajo, do namorado dele, o Miguel "Pinhão" Carneiro, e espero que guardes a cena, ou há porrada da grossa!
Fã-do-Homem-Aranha
P.S. Quem não sabe não mama.

daniel moreira disse...

fui ver a tua exposição e gostei muito, vou estar mais atento ao teu trabalho.
os meus parabéns

daniel moreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
diário rasgado disse...

Obrigado, malta.

Marco